Volte para o seu lar, Arnaldo Antunes
30 junho, 2009
um trio de Leão
bem perto da notícia
Niquinha convidado para
a estrutura da Poesia incompleta
(O médio está em final de contrato e deverá ser convidado a ficar na Cecílio de Sousa, mas fora das lides cibernéticas. Quanto a reforços, deverá chegar do Brasil mais um elemento para os arrumos.
Neste momento, ainda carece de definição o cargo que será oferecido a Niquinha, dúvida que também se coloca quanto ao seu papel na frente de loja ou no armazém.)
in A Bola
não faças misturas
um poema
Se tudo acontecer como previsto
Se tudo acontecer como previsto,
o Senhor Gouveia acordará
um pouco antes do almoço, mesmo a tempo
de descer as escadas e esperar pelo carteiro.
Se acaso receber correspondência,
há-de tirar o chapéu a uma senhora.
Se não lhe chegar nenhuma carta,
fará exactamente a mesma coisa.
Na vida como na escrita, o Senhor Gouveia
utiliza sempre a mesma rima. Os seus gestos
são alexandrinos medidos ao milímetro,
coisas dificilmente publicáveis
já em meados da década de cinquenta,
quando pela primeira vez tirou o chapéu
a uma senhora
(e nunca mais lho devolveu).
Vítor Nogueira
in Senhor Gouveia, Averno
Se tudo acontecer como previsto,
o Senhor Gouveia acordará
um pouco antes do almoço, mesmo a tempo
de descer as escadas e esperar pelo carteiro.
Se acaso receber correspondência,
há-de tirar o chapéu a uma senhora.
Se não lhe chegar nenhuma carta,
fará exactamente a mesma coisa.
Na vida como na escrita, o Senhor Gouveia
utiliza sempre a mesma rima. Os seus gestos
são alexandrinos medidos ao milímetro,
coisas dificilmente publicáveis
já em meados da década de cinquenta,
quando pela primeira vez tirou o chapéu
a uma senhora
(e nunca mais lho devolveu).
Vítor Nogueira
in Senhor Gouveia, Averno
29 junho, 2009
em primeira mão

Um estranho em Goa,
José Eduardo Agualusa, Boca
Três cds, 3, na voz do grande Fernando Alves
com banda sonora de Amélia Muge e António J. Martins
(mãozinha gráfica certeira de Pedro Serpa)
um poema
Oh, como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio e perco a confiança.
Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda aparece,
Da vista se me perde, e da esperança.
Luís de Camões
in Sonetos de Luís de Camões, Assírio & Alvim
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!
Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio e perco a confiança.
Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda aparece,
Da vista se me perde, e da esperança.
Luís de Camões
in Sonetos de Luís de Camões, Assírio & Alvim
ela disse: lê
O escritor está a fazer o que ainda não foi feito. O leitor pode pousar o livro, a frase não foge; o escritor odeia o acto de pousar, porque pousar é não fazer, e não fazer o que ainda não foi feito é um erro. Não fazer é o maior pecado.
Gonçalo M. Tavares
in Breves notas sobre as ligações (Llansol, Molder, Zambrano),
Relógio d´Água
Relógio d´Água
um poema inédito (com um abraço para o autor)
Sento-me à mesa e coloco tudo
em meu redor meteoros, sóis, luas,
planetas, paisagens vulcânicas,
afirmações, dúvidas, amor, ódio, vida, morte,
-a morte dos meus mortos
expulsa-me para fora da terra
a alegria, a força obsessiva da solidão,
as vozes dos outros, - ramificações obscuras,
tudo faz parte.
Depois começam a surgir palavras
e o ritmo inicia o pulsar do poema,
tudo gravita em meu redor desenvolvo
a massa poemática
efabulo, reinvento, metaforizo.
Por vezes surgem corredores, abismos,
escadas, casas abertas e fechadas á noite, espelhos,
entro saio vagueio
um movimento de música.
Aparecem massas volumosas de água molhada, pesada,
estancadas na casa,
há planos interligados em patamares de metáfora,
parábola, alegoria.
Depois digo: - a folha branca de encontro
á madeira transfigurada da árvore - a mesa,
( um suporte no labor de oficina).
As mãos metidas pela água dentro
a recordar a infância toda as origens. Tudo.
Na infância corria pelos campos,
inebriava-me o perfume húmido das rosas,
tocava a corola das flores e os dedos
ardiam de felicidade.
Manuel Nunes
em meu redor meteoros, sóis, luas,
planetas, paisagens vulcânicas,
afirmações, dúvidas, amor, ódio, vida, morte,
-a morte dos meus mortos
expulsa-me para fora da terra
a alegria, a força obsessiva da solidão,
as vozes dos outros, - ramificações obscuras,
tudo faz parte.
Depois começam a surgir palavras
e o ritmo inicia o pulsar do poema,
tudo gravita em meu redor desenvolvo
a massa poemática
efabulo, reinvento, metaforizo.
Por vezes surgem corredores, abismos,
escadas, casas abertas e fechadas á noite, espelhos,
entro saio vagueio
um movimento de música.
Aparecem massas volumosas de água molhada, pesada,
estancadas na casa,
há planos interligados em patamares de metáfora,
parábola, alegoria.
Depois digo: - a folha branca de encontro
á madeira transfigurada da árvore - a mesa,
( um suporte no labor de oficina).
As mãos metidas pela água dentro
a recordar a infância toda as origens. Tudo.
Na infância corria pelos campos,
inebriava-me o perfume húmido das rosas,
tocava a corola das flores e os dedos
ardiam de felicidade.
Manuel Nunes
não faças misturas
um poema
Carta a Miguel Djéjé
Diga amigo Miguel
Como está você?
Em todo o Xipamanine
Já ninguém o vê
Vou dar-lhe a minha viola
Para tocar outra vez
O seu valor um dia
Você mostrou
Todo o mainato o ouvia
E até dançou
Miguel só você sabia
Tocar como já tocou
Vinha maningue gente
Para aprender
Moda lá da sua terra
Bonita a valer
O Jaime e o Etekinse
Amigos não volta a haver
Quando à noite se ouvia
Miguel tocar
Também havia a marimba
Para acompanhar
A noite
Na ponta Geia
Amigos hei-de recordar
O barco foi andando
E a Nanga vi
Foi a saudade aumentando
Longe daí
A gente
Na minha terra
Não canta assim
Como eu ouvi
José Afonso
in Textos e canções, Relógio d´Água
Diga amigo Miguel
Como está você?
Em todo o Xipamanine
Já ninguém o vê
Vou dar-lhe a minha viola
Para tocar outra vez
O seu valor um dia
Você mostrou
Todo o mainato o ouvia
E até dançou
Miguel só você sabia
Tocar como já tocou
Vinha maningue gente
Para aprender
Moda lá da sua terra
Bonita a valer
O Jaime e o Etekinse
Amigos não volta a haver
Quando à noite se ouvia
Miguel tocar
Também havia a marimba
Para acompanhar
A noite
Na ponta Geia
Amigos hei-de recordar
O barco foi andando
E a Nanga vi
Foi a saudade aumentando
Longe daí
A gente
Na minha terra
Não canta assim
Como eu ouvi
José Afonso
in Textos e canções, Relógio d´Água
professores
Jon Stewart
(Há 13 anos e parece que foi amanhã.
Iraque, Jerusalém, educação, Macarena y otras cositas)
um poker de Rui Nunes
um poema
DE BARCO
O sol em visita
ao ventre da terra,
essa aparição
do rosto na tarde
da viagem breve
de barco no rio.
E depois o escuro
no resto do dia,
um barco vazio
para todo o sempre.
José António Almeida
in A Mãe de Todas as Histórias, Averno
O sol em visita
ao ventre da terra,
essa aparição
do rosto na tarde
da viagem breve
de barco no rio.
E depois o escuro
no resto do dia,
um barco vazio
para todo o sempre.
José António Almeida
in A Mãe de Todas as Histórias, Averno
27 junho, 2009
um poema
The hireling shepherd
a veia poética secou
as luzes todas apagadas
o olhar vermelho do despertador
vou por onde não te encontras
outro dia que começa às duas
deprime o cheiro
que sai das casas históricas
ao sol do norte
tudo por exemplo ardido
recolher os dentes-de-leão na cinza
ou no incorpóreo da casa, coisas de vestir
onde vou não é comigo
nem como ganho o pão de cada dia
a constipação alastra
e por trás da caixa de registar
aguardam os comprimidos cor de rosa
para a febre e para a dor
João Almeida
in A Formiga Argentina, Averno
a veia poética secou
as luzes todas apagadas
o olhar vermelho do despertador
vou por onde não te encontras
outro dia que começa às duas
deprime o cheiro
que sai das casas históricas
ao sol do norte
tudo por exemplo ardido
recolher os dentes-de-leão na cinza
ou no incorpóreo da casa, coisas de vestir
onde vou não é comigo
nem como ganho o pão de cada dia
a constipação alastra
e por trás da caixa de registar
aguardam os comprimidos cor de rosa
para a febre e para a dor
João Almeida
in A Formiga Argentina, Averno
um poema
ECCE PUER
Of the dark past
A child is born;
With joy and grief
My heart is torn.
Calm in his cradle
The living lies.
May love and mercy
Unclose his eyes!
Young life is breathed
On the glass;
The world that was not
Come to pass.
A child is sleeping:
An old man gone.
O, father forsaken,
Forgive your son!
*
ECCE PUER
Del oscuro pasado
Nace un niño;
De gozo y de pesar
Mi corazón se desgarra.
Tranquila en su cuna
La vida yace.
Que el amor y la piedad
Abran sus ojos!
Joven vida se exhala
Sobre el cristal;
El mundo que no era
Se llena de existencia.
Un niño duerme:
Un anciano ha partido.
Oh padre abandonado
Perdona a tu hijo!
James Joyce
in Poesías completas, Visor
(tradução de José Antonio Álvarez Amorós)
26 junho, 2009
V de vitória? Não, de Visor
não faças misturas
a propósito de Bocage (só tinham uma fotografia do senhor)
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