Hermínia Silva
30 maio, 2009
dois pequenos momentos do passado do livreirito
É mentira, não é o livreirito,
é um senhor chamado Sandro de América
que, digamos, não tem explicação.
O nível de bimbalhice aqui demonstrado
é coisa ao alcance de poucos, muito poucos.
29 maio, 2009
um poema
formiga
"Pai, anda cá", diz a minha filha.
Pela parede branca sobe uma formiga,
minúscula, muito lenta, obstinada.
A minha filha encolhe o corpo
pequenino para olhar. Não sei se é
a primeira vez que vê uma formiga;
mas é, parece-me, a primeira vez
que se apercebe da enorme diferença
de escala que a separa do insecto.
A minha filha acompanha a subida
heróica da formiga pela parede
branca, vira-se para mim, sorri.
É nesse espaço subitamente tenso,
criado entre a alegria infantil da
descoberta e o esforço irracional
da formiga, que nasce o poema,
mesmo se eu já desisti dele para
limpar o ranho que a minha filha,
absorta, deixou chegar até à boca.
José Mário Silva
in Luz Indecisa, Oceanos
"Pai, anda cá", diz a minha filha.
Pela parede branca sobe uma formiga,
minúscula, muito lenta, obstinada.
A minha filha encolhe o corpo
pequenino para olhar. Não sei se é
a primeira vez que vê uma formiga;
mas é, parece-me, a primeira vez
que se apercebe da enorme diferença
de escala que a separa do insecto.
A minha filha acompanha a subida
heróica da formiga pela parede
branca, vira-se para mim, sorri.
É nesse espaço subitamente tenso,
criado entre a alegria infantil da
descoberta e o esforço irracional
da formiga, que nasce o poema,
mesmo se eu já desisti dele para
limpar o ranho que a minha filha,
absorta, deixou chegar até à boca.
José Mário Silva
in Luz Indecisa, Oceanos
não faças misturas
28 maio, 2009
não faças misturas
juro pela minha saúde
Entre ontem e hoje,
são já três os tipos que aqui entram a pedir dinheiro emprestado.
axiomática esplendorosa
Tó Carlos - O único mister que ainda aposta no Carlos.
Não me entendo com o meu amigo Carlos
nem em Teoria Psicanalítica
nem em futebol.
*
O meu amigo Carlos não acreditava que eu escrevia sobre futebol
e agora não acredita que vou escrever sobre ele.
*
Avisei 3 vezes o meu amigo Carlos antes de rematar, a bola bateu no poste e entrou.
*
O meu amigo Carlos é psicólogo mas é homem,
eu sou psicólogo mas sei jogar à bola.
*
O clube do meu amigo Carlos perde poucas vezes e isso enfurece-me.
*
Era para fazer um arranjinho entre uma amiga minha e o amigo Carlos,
mas por causa das bocas foleiras ele vai teinar sozinho,
longe do resto do plantel.
uma risota pegada
O livro da pobreza e da morte, Rainer Maria Rilke, Bonecos Rebeldes
(tradução de Ana Diogo e Rui Caeiro)
27 maio, 2009
juro pela minha saúde
Passei pela Feira do Livro e falei com pessoas de várias editoras (Afrontamento e Estampa, entre outras) que me disseram Amanhã ou depois entramos em contacto consigo. Amanhã era o sexto ou sétimo dia da Feira. Falaste tu? Assim falaram eles.
26 maio, 2009
há mil anos a bombar
um poema
OS SODOMITAS
Em itálico grafados
noutras palavras mais duras,
com mofa são observados
de viés por essas ruas.
Como hienas na pintura
de bestiários passados,
em velhas lendas perduram
os varões assinalados.
José António Almeida
in A MÃE DE TODAS AS HISTÓRIAS, Averno
Em itálico grafados
noutras palavras mais duras,
com mofa são observados
de viés por essas ruas.
Como hienas na pintura
de bestiários passados,
em velhas lendas perduram
os varões assinalados.
José António Almeida
in A MÃE DE TODAS AS HISTÓRIAS, Averno
um poema
AOS VINDOUROS, SE OS HOUVER...
Vós que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;
que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;
computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;
que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.
Alexandre O´Neill
in De ombro na ombreira, Dom Quixote
Vós que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;
que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem peçários, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo;
computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;
que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.
Alexandre O´Neill
in De ombro na ombreira, Dom Quixote
por razões de saúde
o pequeno Changuito não poderá fazer a leitura de poesia, como aqui foi anunciado há dias. No entanto, o livreirito compromete-se a melhorar a tempo do recital da próxima terça, dia 2 de Junho, ser feito com a saúde num brinco e a habitual falta de astro.
25 maio, 2009
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
entre o joão almeida, o silva, o freitas, helder (sem o acento) e o gomes,
entre o joão almeida, o silva, o freitas, helder (sem o acento) e o gomes,
apenas me tem sobrado tempo para o forte.
chegou hoje a ana, e quer-me parecer que foi amor à primeira vista.
chegou hoje a ana, e quer-me parecer que foi amor à primeira vista.
li umas páginas do tisanas e outras d'o pavao.
muito bom.
muito bom.
devia ter começado a ler poesia há anos, patrone.
(...)
(...)
um poema
SHE LIVES BY THE CASTLE
Meu amor - assim começavam
quase sempre os poemas
de que menos conseguia gostar.
Mas é verdade (a verdade
e a retórica nunca se entenderam)
que um bando de gaivotas atravessa
o pouco céu que vai da Sé aos Clérigos.
Tu dormes; nunca estivemos aqui.
A cortina por levantar, de um amarelo
duvidoso, a varanda sobre ruínas,
casas onde morou gente,
telhados abatidos que me servem
de cinzeiro. Tu dormes,
rosto abertamente escondido
sob lençóis brancos, almofadas
com brasão, espelhos dos anos vinte.
Não sabes, não sabemos, de melhor castelo.
Ignoras devagar os motivos que
em breve nos farão descer do quarto
209, Grande Hotel de Paris,
atentos aos primeiros sinais do nada.
E assim, meu amor, acaba este poema.
Manuel de Freitas
in Intermezzi, OP. 25, Opera Omnia
Meu amor - assim começavam
quase sempre os poemas
de que menos conseguia gostar.
Mas é verdade (a verdade
e a retórica nunca se entenderam)
que um bando de gaivotas atravessa
o pouco céu que vai da Sé aos Clérigos.
Tu dormes; nunca estivemos aqui.
A cortina por levantar, de um amarelo
duvidoso, a varanda sobre ruínas,
casas onde morou gente,
telhados abatidos que me servem
de cinzeiro. Tu dormes,
rosto abertamente escondido
sob lençóis brancos, almofadas
com brasão, espelhos dos anos vinte.
Não sabes, não sabemos, de melhor castelo.
Ignoras devagar os motivos que
em breve nos farão descer do quarto
209, Grande Hotel de Paris,
atentos aos primeiros sinais do nada.
E assim, meu amor, acaba este poema.
Manuel de Freitas
in Intermezzi, OP. 25, Opera Omnia
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
Bom, se bem o conheço estou a gastar o meu servo-croata inutilmente. Aposto que vai mas é aproveitar a noite de amanhã para ver o episódio do Equador que gravou ontem à noite.
(...)
Bom, se bem o conheço estou a gastar o meu servo-croata inutilmente. Aposto que vai mas é aproveitar a noite de amanhã para ver o episódio do Equador que gravou ontem à noite.
(...)
entrou e pôs-se a dizer palavrões
(em inglês e português)
Pomas, um tostão cada, James Joyce, Iluminuras
(tradução de Alípio Correia de Franca Neto)
24 maio, 2009
23 maio, 2009
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
Por causa da paranóia anti-tabágica qualquer dia
Por causa da paranóia anti-tabágica qualquer dia
um gajo não tem dinheiro para mandar fumar um ceguinho.
(...)
(...)
um poema
Daqui, desta Lisboa...
Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por suíços habitada,
onde a tristeza vil e apagada
se disfarça de gente mais activa;
daqui, deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;
daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira da vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristôlho que se apaga;
daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus...
Alexandre O´Neill
in De ombro na ombreira, Dom Quixote
Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por suíços habitada,
onde a tristeza vil e apagada
se disfarça de gente mais activa;
daqui, deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;
daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira da vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristôlho que se apaga;
daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus...
Alexandre O´Neill
in De ombro na ombreira, Dom Quixote
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
O «meu» Benfica talvez não contratasse a Elena e o Ben.
O «meu» Benfica talvez não contratasse a Elena e o Ben.
Os outros, quaisquer deles, ficariam bem ao lado do Cardozo.
(...)
(...)
um poema
passagem de Emile Henri
Era no tempo da palavra papel
da pluma bem comida lançando ideias de justiça aos chineses
da espingarda de ar podre ao ombro de cada um
Depois de ver com os seus próprios olhos como é que
o ratazana toma o sei chàzinho
Emile Henri
escritor da literatura da dinamite
lança a segunda bomba à porta do Café Términus
dado que: da má distribuição da riqueza e das coisas boas da Terra
TODOS SEM EXCEPÇÃO TÊM A MÁXIMA CULPA
Mário Cesariny
in Pena Capital, Assírio & Alvim,
Era no tempo da palavra papel
da pluma bem comida lançando ideias de justiça aos chineses
da espingarda de ar podre ao ombro de cada um
Depois de ver com os seus próprios olhos como é que
o ratazana toma o sei chàzinho
Emile Henri
escritor da literatura da dinamite
lança a segunda bomba à porta do Café Términus
dado que: da má distribuição da riqueza e das coisas boas da Terra
TODOS SEM EXCEPÇÃO TÊM A MÁXIMA CULPA
Mário Cesariny
in Pena Capital, Assírio & Alvim,
22 maio, 2009
o Benfica acaba de confirmar o interesse em
Pablo García-Casado, Josep M. Rodríguez,
José Ángel Cilleruelo,
Elena Medel, Ben Clarke
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
Depois vim contando a história do velho e dos animais em cima dele.
Depois vim contando a história do velho e dos animais em cima dele.
Tive até agora dois tipos de reacções:
ou ficam chateados porque estavam a levar tudo muito a sério,
ou primeiro nem entendem e quando se apercebem que é só uma história
riem-se cheios de maldade.
(...)
(...)
a Catarina dava-lhe mas o Ricardo não merece*
Sobre o lado esquerdo, Carlos de Oliveira, Dom Quixote
* Singelíssimo piscar de olho aos dois meninos da Trama.
soy loco por ti, América*
Antologia poética, Nicolás Guillén, Campo das Letras
(tradução de Albano Martins)
* é um verso de José Carlos Capinan
depois do Nobel, ganhou a Bola de Prata
(em inglês e português)
Antologia poética, Seamus Heaney, Campo das Letras
(tradução de Vasco Graça Moura)
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