28 fevereiro, 2009

pergunta-me um amigo: mas de onde é que te apareceu essa ideia?

Para Mariza, a alegada fadista, ser a mais alta expressão da portugalidade, seja lá o que isso for, só lhe falta apresentar-se com uma rodelinha de morcela na cabeça e um galo de Barcelos em cada orelha.

mais frutos do ciclópico trabalho do Senhor Visconde de Castelões (e do seu utilíssimo Dicionário de rimas)



Rimas em énio

s. 3. sil

blénio
Enio
génio
Ménio
nénio
sénio

s. 6 sil.

cianogénio


a. 6 sil.

adelogénio
electrogéneo
heterogéneo
acrimogénio
ultermipéneo
ureogéneo

axiomática esplendorosa


Tó Carlos: Mais de meio século com os olhos postos na baliza.




A Patrick (marca de equipamentos desportivos) nunca vestiu um grande,
mas vestiu sempre os grandes sedutores de moças.

*

S.Francisco Xavier em Goa, Calisto no Vietname, Manuel José no Egipto.

*

No outro dia comi antes de um jogo a melhor bifana da minha vida.
A roullote tem o nome do meu signo.
Tal designação era impossível no zodíaco chinês.

*

Ganhei o meu espaço na equipa porque erro poucos passes e falo pouco.

*

Uma vez vi um tipo rebentar o bombo da claque. Passavam 35 minutos da segunda parte e não foi bonito.

ainda quentinho


Epitaph

I should have perfected my signature.

John Mateer

Epitáfio

Devia ter aperfeiçoado a minha assinatura.

Tradução de Miguel Martins

Ambos estão no livro The travels / Viagens, recentemente editado pela Tea for One.

acaba assim


um livro de João Miguel Henriques

(...)

a cada tartaruga
o seu sopro
o seu padrão
de carapaça

27 fevereiro, 2009

um vídeo

para a Elsa e para o João



Roberto Benigni

hoje a Colômbia, amanhã o mundo

dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras


Manuel de Freitas -

A pôr o coração do miúdame em alvoroço
desde o princípio do século.



(...)

olá
estes são os livros do mf que eu tenho. tudo o que tiveres e não estiver nesta lista, guarda para mim, please
um beijo


todos contentes e eu também, campo das letras, 2000
os infernos artificiais, frenesi, 01
büchlein für johann sebastian bach, A&A, 03
beau séjour, A&A, 03
levadas (edição revista e aumentada) A&A, 04
blues for mary jane, &etc, 04
juxta crucem tecum stare, alexandria, 04
o coração de sábado à noite, A&A, 04
jukebox, edição tvr, 05
qui passe, for my ladye, ed. autor, 05
a flor dos terramotos, averno, 05
cretcheu futebol clube, A&A, 06
novas memórias de ansiães (com a.m. pires cabral, vítor nogueira, rui pires cabral), averno, 07
terra sem coroa, edição tvr, 07
walkmen (com josé miguel silva) &etc, 07
estádio, ed. autor, 08
brynt kobolt, averno, 08

(...)

a reposição da verdade

dois da Fenda


dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras


(...)

Não vale a pena evangelizar os tipos da contabilidade.

(...)

acaba assim

um livro de Manuel Cintra

(...)

Acho que vou pôr um piercing no ouvido. Deus é mais mãe do que pai.

26 fevereiro, 2009

um vídeo


para Diogo Vaz Pinto



Paulo Leminski

dois Assírios


uma cotovia nacional e outra estrangeira


um poema


ALL STRIPPED DOWN

Cavalheiro idoso, calvo e sem jeito
para foder procura quem o ature
e acredite (às vezes) na ressurreição.

Nunca leu livros, cospe grosso
e ronca. Assunto sério: morrer com alguém.

Manuel de Freitas
in O coração de sábado à noite, Assírio & Alvim, 2004

juro pela minha saúde

O meu preclaro tio, benfiquista são e conhecedor da minha leonina preferência, mandou-me uma mensagem perguntando:

Já viste o novo livro d´Os Cinco?
Chama-se Os Cinco em Alvalade.

dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras


(...)

Ando a ler o Dispersão – Poesia Reunida, do Nuno Dempster. Se ainda não deste, dá uma vista de olhos. Vale a pena.

(...)

juro pela minha saúde

Há muitos anos, ainda Manuela Ferreira Leite era viva, havia um pedinte, em Cascais, que dizia várias vezes:

Deiam-me uma esmolinha, ó se não. Deiam-me uma esmolinha, ó se não. Deiam-me uma esmolinha, ó se não. Quando lhe perguntavam: Ó se não, o quê? O pedinte - não era russo - pouco orgulhoso, encolhia os ombros e respondia: Ó se não eu vou-me embora.

revisionimo

Cesário Verde Rules


Às vezes tem mesmo de se reler o Cesário Verde.
Para voltarmos a perceber Lisboa, o outro e nós.



(Ou então para relembrar o inferno da escola)

acaba assim


um livro de António Franco Alexandre

(...)

papagaio, mão doce,
enquanto a névoa desce sobre os muros
e se esticam as pernas no suor da mudança
e te saudamos longe, junto ao rio.

25 fevereiro, 2009

um vídeo


para o Mário Alberto



Infidelidade, Caetano Veloso


Aqui, além do canto de Caetano, é de reter (derreter com) a letra de Ataulfo Alves

axiomática esplendorosa


Tó Carlos: Mais de trinta anos radicalmente contra o chuveirinho.





No fundo poucos são aqueles que beijaram a bola antes de rematar.

*

Se não odiarmos o adversário dificilmente vamos odiá-lo
e isso vira-se contra a nossa equipa.

*

No outro dia marquei um golo de cabeça, tinha 34 anos.

*

Entre irmãos o que jogava melhor foi trabalhar e casou novo.

chegaram amorosamente

Alguns livros em inglês




(Cheira-me que o mais activo
bibliotecário
os conhece todos)

já cá está (e na Artes e Letras, do Luís Gomes, também)


Um pouco de morte, António Quadros Ferro

(9€ por cada um dos 150 exemplares)

quasi um trio de livros


dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras


(...)

bibliotecas, faculdades, em breve a assembleia da república

(...)

ultima hora

última hora

Depois de descrever uma histórica cena de pancadaria entre um homem franzino e Nuno Salvação Barreto, Rui Caeiro diz:

O homem franzino era primeiro
violino da Orquestra da Emissora Nacional.

dois relógios


é uma pena

O Almocreve das petas manter-se anónimo
mesmo quando visita livrarias.

João Paulo primeiro

cá está um par de Asa(s)


ainda um dia há-de entrar nesta casa

24 fevereiro, 2009

um vídeo


para a Rita Assemany



excerto de Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho.

juro pela minha saúde


Manuel,
já cá está o Bardamerda*.



(* É o nome de um livro)

em destaque à esquerda de quem entra


Carol Ann Duffy, Mário Quintana, Will Eaves, Manuel Cintra,
Jairo Aníbal Niño, Luís Henriques e José Feitor,
Kathryn Simmonds, Simon Armitage,
e um anónimo.

um brinco


Não sei se os poemas são bons, ainda não li.
Mas o título, senhores, o título é o melhor do ano.



A capa, linda, foi feita
pelo pai do Álvaro.

curiosidades

No espaço de duas horas Vítor Silva Tavares e Vítor Nogueira
disseram mais ou menos o mesmo:

A porta da rua tem que estar sempre aberta.
Por mim. Para mim.

(Achei bonito)

o retrato do artista ao jantar



(A fotografia está uma desgraça.
O jantar e a companhia estavam uma delícia)

coisas

Gosto muito de mandar livros para o Porto.

juro pela minha saúde


Um livro oferecido a cada folião
que aparecer mascarado de Igrejas Caeiro.

chegam pelo ar, pelo mar, por terra (alguns por posta restante, outros ainda em brasa)


Borboleta
, Manuel Cintra
(edição do autor com mãozinha mágica de Vítor Silva Tavares)



Sombra das minhas mãos
, António Barahona
(numa edição de Luís Gomes, o sábio da Misericórdia)

efemérides


Poesia incompleta

Há 3 meses
a desbaratar rimances

22 fevereiro, 2009

um vídeo


para Ale y Fer Laguna



Se dice de mí, Tita Merello

axiomática esplendorosa


Tó Carlos: mais de três décadas ao serviço do futebol com extremos.






Gosto das bolas laranjas porque me recordam a neve.

*

Todos deviam ler Eduardo Galeano, sobretudo o livro dos abraços para aprender a festejar os golos. Ele tem outro livro sobre futebol mas é para quem se diverte com aquilo.

*

Adoro jogadores que joguem parados, Acosta, Romário.
Já o Quim da minha rua não rendia tanto.

*

Já se vê pouco os jovens com aquelas malinhas só para as botas,
ténis brancos e patilha comprida.

21 fevereiro, 2009

um vídeo

para Ramón Maschio



La última curda, Roberto Goyeneche

até segunda

Ao contrário deste blogue, a livraria fecha. Aos domingos, ficam os livros a descansar do livreirito. Fecho a porta sorrindo, grato pelas visitas, e espero que segunda-feira, de outra maneira, com estes e outros clientes, se repita tudo outra vez.

oiro de vário tempo e lugar*






(* é o nome de uma antologia feita
por A. de Herculano de Carvalho)

destacados entre a montra, as mesinhas e as estantes

Liberto Cruz, Edgar Lee Masters, Rui Pedro Gonçalves, Tim Burton, Vindeirinho, José Duro, Dante, Manuel Gusmão, Isabel Meyrelles, Galuco Matoso, Guilherme de Faria, Vítor Nogueira, Bocage, Natércia Freire, Ernesto Cardenal, Carlos Edmundo de Ory, Cesário Verde, Blaise Cendrars, e aproximadamente quinze poetas aztecas cheios de magias e razão.

juro pela minha saúde

um maestro de ladecos

um poema

32.

A dor - não obstante a dor, chegarei a Horeb
antes que a noite caia, e direi os meus versos
de contrição e êxtase a quem tiver ouvidos.

E direi que a dor é como o fogo ou a lua,
e que me fortaleço na desolação, e o meu caminho
é pelo lume e os astros iluminado,
e mais me fortaleço na desolação.

Eu chegarei ao mar, e cantarei o hino,
e a minha canção incendiará a noite,
e os versos invocarão o homem, o bem-amado, o excelso,
e pelo meu canto aproximarei o coração
ao coração das raparigas que cantam em Jerusalém.

E direi que a dor é como o lume e os astros,
e que me fortaleço na desolação, e o meu caminho
é iluminado pelo fogo ou a lua,
e mais me fortaleço na desolação.

Amadeu Baptista
in Outros domínios, Câmara Municipal de Vila Viçosa, 2008



Obrigado ao Henrique que prefaciou e trouxe este livro.

20 fevereiro, 2009

um vídeo


para Walter Hidalgo



Estranha forma de vida, Caetano Veloso

abençoados

agora a sério

onde é que está aquele, ai, como é que se chama, um com barba que faz poemas na assembleia?


Mutimati Barnabé João, Paul Bowles, Medeiros e Albuquerque, Oscar Wilde,
Miriam Reyes, Natália Correia, Paul Muldoon, Mario Benedetti, Oswald de Andrade,
Nuno Júdice, Paul Verlaine, Mario Chamie, Nuno Félix da Costa,
Marly de Oliveira, Octavio Paz, P. Esse Lopes, Nuno Moura,
Paul Laurence Dunbar, Mário Rui Oliveira, Nicola Vaptsarov,
Mário-Henrique Leiria, Mário Cesariny, Natércia Freire, Mário de Andrade,
Mário de Sá-Carneiro, Odysséas Elytis, Miguel Martins, Ovídio, Mario Faustino,
Mário Quintana, Max Aub, Matsuo Bashô, Michelangelo,
Nâzim Hikmet, Martha Medeiros, Marto R., Menotti del Picchia,
Mia Couto, Michel Sleiman, Pablo García Casado, Micheliny Verunschk,
Miguel Calatayud, Miguel de Unamuno, Miguel Manso, Miguel Real,
Miguel Torga, Milan Richter, Nunes da Rocha.

dos afectos

O pai da Alice voltou cá, comprou livros, levou uma encomenda que um poeta lhe tinha deixado e, aqui vem a informação importante, disse que a Alice tem uma série de desenhos pronta para o livreirito. Fico à espera da volta da generosa artista.

dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras


(...)

eu odiava plátanos, quem sabe se por ser a editora de quase tudo quanto era livro escolar.
no outro dia puxei pelo assunto do antónio osório por um motivo, que é algo como isto, que redimiu em mim os plátanos (de memória, talvez seja ligeiramente diferente)

via láctea

caminhar por ela
como quem olha
e ama
plátanos velhos

(...)

um poema do poema

*

mas eu, que tenho o dom das línguas, senti
a linha sísmica atravessando a montagem das músicas,
e ouvi chamarem-me em lírica,
numa língua nenhuma que não sabia,
e os acertos e erros do meu nome não eram traduzíveis
nas línguas do meu dom,
e soube então que ar e fogo se mantinham um ao outro mas,
em vez de se abrirem,
se fechavam, e estremeci das músicas ¿ oh
o que eram elas,
que coisa grande traziam para ser posta em mínimo,
e que somenos ministério lavrava assim a voz,
no vivo,
no arrepio do ritmo,
por brônquios, garganta e dentes,
para fora,
para o escuro,
para o número ímpar?

*

Herberto Helder
in Ofício cantante, Assírio & Alvim, 2009

dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras


(...)

Por acaso até ganhei a merda do concurso.

(...)

Henrique, obrigado e um abraço


Federico Fellini a Giulietta Masina

Entrei numa loja para te comprar
um ramo de poemas.
Disseram-me que só tinham flores,
mas eu não entendi a resposta.
Repeti que queria um ramo de poemas.
Voltaram a explicar-me que ali só vendiam flores.
Sugeriram-me vários tipos,
disseram-me os nomes.

Como sabes, sou péssimo
com os nomes das flores.
Apenas tenho memória para poemas.
Esforcei-me para fazer compreender
esta minha particularidade,
mas ninguém me entendeu.
À força de não me quererem
vender poemas
impinginam-me flores.

Que cheiravam melhor
Que eram mais vivas,
que as mulheres gostam mais.
Flores que eu não quero,
que eu definitivamente não quero,
pois tenho-te a ti.
Ninguém dá flores às flores.
O que eu quero é um ramo de poemas
para poder oferecer à minha flor.

Henrique Manuel Bento Fialho

in A dança das feridas



João Paulo primeiro

Pina dixit

esclarecimento depois de ler o jornal*


Há uma catrefada de dias que o
Boa Morte, do Manuel de Freitas, está esgotado.

* É o Público.

não se acredita

19 fevereiro, 2009

um vídeo

para a Mariana



Victoria de los Angeles

um poema

depois de muito meditar
resolvi editar
tudo o que o coração
me ditar

Paulo Leminski
in O ex-estranho, Iluminuras, 2001

lá dentro, na segunda sala


W. B. Yeats, Rita Taborda Duarte, W.H. Auden,
Wallace Stevens, Walt Whitman, Rosa Alice Branco, Walter Benjamin,
Robert Hass, Waly Salomão, Wáshington Cucurto, Robert Louis Stevenson,
Zhang Kejiu, Roberto Juarroz, Wilfred Owen, William Blake, Rita Moutinho,
Robert Bringhurst, Wislawa Szymborska, Robert Muller, Wolf Erlbruch,
William Buroughs, William Carlos Williams, Rui Baião, William Morris,
Xavier de Maistre, Yannis Ritsos, Yehuda Amichai, Yi Sán,
Yves Bonnefoy, Roman Erben, Yvette K.Centeno,
Zé Luís Costa, Roger Bastide, Wei Han Wong.

uma curta e nobre linhagem e quem a invoca


(...)

Pérsio:

No tempo que eu mais penava,
dormia a noite ao sereno;
sustinha-me o que esperava;
sobre ua* cama de feno
muitas vezes repousava.
Agora, em nenhum lugar
acho descanso, nem vida,
para poder descansar.
Tenho a esperança perdida,
não me fica que esperar.

(...)


Bernardim Ribeiro


(* o U é acentuado com um til)


(...)

A Ciência:

Então contempla atento
estes doutos da Lei, chefes do Pensamento,
dos quais até aos céus voou a egrégia fama.
São Moisés, Maomé, mais Zoroastro e Brama,
os quais têm por si só feito mais cemitérios
do que todos os reis e coveiros de impérios
que inda chumbam o mundo ao Erro e ao Preconceiro.
Atenta como vão, as mãos em cruz no peito,
tendo lançado o mundo à treva e à assolação.
Atenta neles bem!

(...)

Gomes Leal


14.

Pára-me de repente o Pensamento...
- Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
- Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento

- Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
- Pára... e Fica... e Demora-se um Momento...

Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora

E Mergulha na Noute, Escura e Fria
Um Olhar d´Aço, que na Noute explora...

- Mas a Espora da dor seu flanco estria...

- E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!

Ângelo de Lima



*
o ministério lírico, o mais grave e equívoco, o dom, não o tenho,
espreito-o, leitor,
por cima do ombro de outros,
rítmico, manuscrito,
porque sofro do êrro,
porque não me equilibro nas linhas,
palavras sim insubstituíveis mas
tão pouco sustentáveis,
sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,
que tusa surreal!
ou fodem murcho?
a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,
em teorias gerais da linguagem,
na vida eterna,
na gramática,
na foda estrita,
em prática técnica nenhuma,
na glória da língua,
não há apoio de inserção que me valha,
e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,
morro faz já bastante tempo,
ou não ganhei a mão esquerda certa,
ou não perdi a razão suficiente,
Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, os loucos,
para-me de repente o pensamento,
luzia a lusa língua,
se era o mesmo o ministério voltava sempre ao comêço,
exasperado, lúcido,
o mais música de câmara possível,
o recôndito,
o côrrego,
tão virgem nele se bebia a água,
e lisa, límpida, ligada,
e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,
o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,
oh terror e deslumbre,
aqua alta!

*


Herberto Helder

ei-los que entram







uns a uns, juntinhos, pela porta
até ficarem regalados nas estantes

foi galo

Numa curta ausência do livreirito, excelsamente substituído pelo inquebrantável e sapientíssimo Miguel Martins, cá estiveram A. Dasilva O., Rui Caeiro, Luis Manuel Gaspar. O motivo da fuga, acreditem, foi altíssimo.

um poema do poema

*

a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão termica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso

*

Herberto Helder
in Ofício cantante, Assírio & Alvim, 2009

18 fevereiro, 2009

um vídeo


Para a Lula



Siga cochero
, Daniel Melingo

oiro de vário tempo e lugar*






(* é o nome de uma antologia feita
por A. de Herculano de Carvalho)

um poema do poema

*

exultação, fervor,
se doesse nas práticas da graça,
uma língua analfabeta, plena,
fazia-se um inferno para obrigá-los a falar nessa língua?
se fosse,
tanta gente estilística mas ninguém queria falar
com tanto poder,
tanta desordem na música,
que falassem numa língua incrível, dizia-se,
de quando os atropelos,
de quando quebrados os sete selos,
se doesse num pouco de gramática

*

Herberto Helder
in Ofício cantante, Assírio & Alvim, 2009

agora mesmo

- O que é que tem aqui sobre bio-mecânica?

- Nada, caro senhor. Só livros de poesia, em torno de poesia, sobretudo de poesia.

- Então e de poesia bio-mecânica?

- Assim de repente, não sei, acho que nada. Não conheço nada.

- Isso da poesia é muito bonito, mas sem bio-mecânica a poesia não serve para nada.

entram sem fazer continência

Wanda Ramos, Peter Handke, Alda Merini, Jorge de Sena, T.S. Eliot, Antero de Quental, Günter Kunert, Ângelo de Lima, Ibn `Ammâr, Blaga Dimitrova, Luís Miguel Nava, Cesare Pavese, Natália Correia, César Vallejo, Eugénio de Andrade, Anna Akhmátova, Jorge Aguiar Oliveira, Alda Lara, José Alberto Marques, e o mui nobre e sabedor Luis Manuel Gaspar.

a hora mais esperada

A era da Axiomática Futebolística começa aqui.

Tó Carlos: filosofia em movimento.






O perfil psicológico dos homens pode aferir-se através do jogo que preferem:

Brasil x Argentina
Holanda x Dinamarca
França x Itália
Portugal x Malta

*

No Ceará há dois gémeos que formam a dupla atacante num clube local, um tem 23, outro 25 anos.

*

A maturidade afectiva vem quando se odeia o clube rival sem culpa nem remorso.

*

O meu gato é a favor das novas tecnologias no futebol mas não consegue assinar a petição on-line.

15 fevereiro, 2009

um vídeo


para a Céu


Vanessa Redgrave

2 gatos

À espera de Luis Manuel Gaspar


pérolas aos poucos*

Tó Carlos, a partir de quarta-feira,
terá presença regular neste blogue. Três exemplos do que podemos esperar:



Seccionista é um cargo que vai desaparecendos das SAD de futebol, está entre o gerente e o carolas.

*

A dinâmica ofensiva nem sempre faz juz ao nome.

*

Quem vai ao futebol sozinho está apanhado do juízo.


* É um título de José Miguel Wisnik.

um poema

A minha casa é lá longe onde nascem os lobos
Nessa terra dourada onde germinam as plantas ardentes do amor
Com as raízes flutuando entre as espumas da memória
As janelas abrem-se e mostram paisagens arrebatadoras à beira do abismo
Ou fecham-se de súbito formando a erosão das lágrimas
nas planícies melancólicas onde vivem os mortos
As escadas precipitam-se como feras atrás dos meus passos
Afundam-se na eternidade e sobem até às maiores alturas
Atrás das cortinas velhas múmias de prata lavrada pelos costumes errantes
Iluminam com uma claridade lunar
As tapeçarias transparentes das carícias
A saudade desesperada a violência da despedida
O fulgor dos países perdidos e das cabeças à deriva no mar de outros anos
Eu espero-te até que a casa se suma lentamente à flor da terra

Ernesto Sampaio

in Fernanda, Fenda

(Também cá está)