Para Mariza, a alegada fadista, ser a mais alta expressão da portugalidade, seja lá o que isso for, só lhe falta apresentar-se com uma rodelinha de morcela na cabeça e um galo de Barcelos em cada orelha.
28 fevereiro, 2009
mais frutos do ciclópico trabalho do Senhor Visconde de Castelões (e do seu utilíssimo Dicionário de rimas)
Rimas em énio
s. 3. sil
blénio
Enio
génio
Ménio
nénio
sénio
s. 6 sil.
cianogénio
a. 6 sil.
adelogénio
electrogéneo
heterogéneo
acrimogénio
ultermipéneo
ureogéneo
axiomática esplendorosa
Tó Carlos: Mais de meio século com os olhos postos na baliza.
A Patrick (marca de equipamentos desportivos) nunca vestiu um grande,
mas vestiu sempre os grandes sedutores de moças.
*
S.Francisco Xavier em Goa, Calisto no Vietname, Manuel José no Egipto.
*
No outro dia comi antes de um jogo a melhor bifana da minha vida.
A roullote tem o nome do meu signo.
Tal designação era impossível no zodíaco chinês.
*
Ganhei o meu espaço na equipa porque erro poucos passes e falo pouco.
*
Uma vez vi um tipo rebentar o bombo da claque. Passavam 35 minutos da segunda parte e não foi bonito.
ainda quentinho
Epitaph
I should have perfected my signature.
I should have perfected my signature.
John Mateer
Epitáfio
Devia ter aperfeiçoado a minha assinatura.
Devia ter aperfeiçoado a minha assinatura.
Tradução de Miguel Martins
Ambos estão no livro The travels / Viagens, recentemente editado pela Tea for One.
acaba assim
um livro de João Miguel Henriques
(...)
a cada tartaruga
o seu sopro
o seu padrão
de carapaça
a cada tartaruga
o seu sopro
o seu padrão
de carapaça
27 fevereiro, 2009
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
Manuel de Freitas -
A pôr o coração do miúdame em alvoroço
desde o princípio do século.
(...)
olá
estes são os livros do mf que eu tenho. tudo o que tiveres e não estiver nesta lista, guarda para mim, please
um beijo
todos contentes e eu também, campo das letras, 2000
os infernos artificiais, frenesi, 01
büchlein für johann sebastian bach, A&A, 03
beau séjour, A&A, 03
levadas (edição revista e aumentada) A&A, 04
blues for mary jane, &etc, 04
juxta crucem tecum stare, alexandria, 04
o coração de sábado à noite, A&A, 04
jukebox, edição tvr, 05
qui passe, for my ladye, ed. autor, 05
a flor dos terramotos, averno, 05
cretcheu futebol clube, A&A, 06
novas memórias de ansiães (com a.m. pires cabral, vítor nogueira, rui pires cabral), averno, 07
terra sem coroa, edição tvr, 07
walkmen (com josé miguel silva) &etc, 07
estádio, ed. autor, 08
brynt kobolt, averno, 08
estes são os livros do mf que eu tenho. tudo o que tiveres e não estiver nesta lista, guarda para mim, please
um beijo
todos contentes e eu também, campo das letras, 2000
os infernos artificiais, frenesi, 01
büchlein für johann sebastian bach, A&A, 03
beau séjour, A&A, 03
levadas (edição revista e aumentada) A&A, 04
blues for mary jane, &etc, 04
juxta crucem tecum stare, alexandria, 04
o coração de sábado à noite, A&A, 04
jukebox, edição tvr, 05
qui passe, for my ladye, ed. autor, 05
a flor dos terramotos, averno, 05
cretcheu futebol clube, A&A, 06
novas memórias de ansiães (com a.m. pires cabral, vítor nogueira, rui pires cabral), averno, 07
terra sem coroa, edição tvr, 07
walkmen (com josé miguel silva) &etc, 07
estádio, ed. autor, 08
brynt kobolt, averno, 08
(...)
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
Não vale a pena evangelizar os tipos da contabilidade.
(...)
acaba assim
um livro de Manuel Cintra
(...)
Acho que vou pôr um piercing no ouvido. Deus é mais mãe do que pai.
26 fevereiro, 2009
um poema
ALL STRIPPED DOWN
Cavalheiro idoso, calvo e sem jeito
para foder procura quem o ature
e acredite (às vezes) na ressurreição.
Nunca leu livros, cospe grosso
e ronca. Assunto sério: morrer com alguém.
Manuel de Freitas
in O coração de sábado à noite, Assírio & Alvim, 2004
para foder procura quem o ature
e acredite (às vezes) na ressurreição.
Nunca leu livros, cospe grosso
e ronca. Assunto sério: morrer com alguém.
Manuel de Freitas
in O coração de sábado à noite, Assírio & Alvim, 2004
juro pela minha saúde
O meu preclaro tio, benfiquista são e conhecedor da minha leonina preferência, mandou-me uma mensagem perguntando:
Já viste o novo livro d´Os Cinco?
Chama-se Os Cinco em Alvalade.
Chama-se Os Cinco em Alvalade.
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
Ando a ler o Dispersão – Poesia Reunida, do Nuno Dempster. Se ainda não deste, dá uma vista de olhos. Vale a pena.
(...)
juro pela minha saúde
Há muitos anos, ainda Manuela Ferreira Leite era viva, havia um pedinte, em Cascais, que dizia várias vezes:
Deiam-me uma esmolinha, ó se não. Deiam-me uma esmolinha, ó se não. Deiam-me uma esmolinha, ó se não. Quando lhe perguntavam: Ó se não, o quê? O pedinte - não era russo - pouco orgulhoso, encolhia os ombros e respondia: Ó se não eu vou-me embora.
Deiam-me uma esmolinha, ó se não. Deiam-me uma esmolinha, ó se não. Deiam-me uma esmolinha, ó se não. Quando lhe perguntavam: Ó se não, o quê? O pedinte - não era russo - pouco orgulhoso, encolhia os ombros e respondia: Ó se não eu vou-me embora.
Cesário Verde Rules
Às vezes tem mesmo de se reler o Cesário Verde.
Para voltarmos a perceber Lisboa, o outro e nós.
(Ou então para relembrar o inferno da escola)
acaba assim
um livro de António Franco Alexandre
(...)
papagaio, mão doce,
enquanto a névoa desce sobre os muros
e se esticam as pernas no suor da mudança
e te saudamos longe, junto ao rio.
25 fevereiro, 2009
um vídeo
para o Mário Alberto
Infidelidade, Caetano Veloso
Aqui, além do canto de Caetano, é de reter (derreter com) a letra de Ataulfo Alves
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
bibliotecas, faculdades, em breve a assembleia da república
(...)
última hora
Depois de descrever uma histórica cena de pancadaria entre um homem franzino e Nuno Salvação Barreto, Rui Caeiro diz:
O homem franzino era primeiro
violino da Orquestra da Emissora Nacional.
violino da Orquestra da Emissora Nacional.
24 fevereiro, 2009
em destaque à esquerda de quem entra
Carol Ann Duffy, Mário Quintana, Will Eaves, Manuel Cintra,
Jairo Aníbal Niño, Luís Henriques e José Feitor,
Kathryn Simmonds, Simon Armitage,
e um anónimo.
um brinco
Não sei se os poemas são bons, ainda não li.
Mas o título, senhores, o título é o melhor do ano.

A capa, linda, foi feita
pelo pai do Álvaro.
curiosidades
No espaço de duas horas Vítor Silva Tavares e Vítor Nogueira
disseram mais ou menos o mesmo:
disseram mais ou menos o mesmo:
A porta da rua tem que estar sempre aberta.
Por mim. Para mim.
(Achei bonito)
Por mim. Para mim.
(Achei bonito)
chegam pelo ar, pelo mar, por terra (alguns por posta restante, outros ainda em brasa)
23 fevereiro, 2009
um vídeo
para a Luz e o Caio*
As curvas da estrada de Santos, Caetano Veloso
* Em casa de quem vi este vídeo há mais dez anos.
informação de última hora
Como não conseguiu uma máscara da cara de Sócrates com um cérebro de Cavaco, o livreirito estará trabalhando amanhã, como se se tratasse de uma normal terça-feira de Carnaval.
22 fevereiro, 2009
axiomática esplendorosa
Tó Carlos: mais de três décadas ao serviço do futebol com extremos.

Gosto das bolas laranjas porque me recordam a neve.
*
Todos deviam ler Eduardo Galeano, sobretudo o livro dos abraços para aprender a festejar os golos. Ele tem outro livro sobre futebol mas é para quem se diverte com aquilo.
*
Adoro jogadores que joguem parados, Acosta, Romário.
Já o Quim da minha rua não rendia tanto.
*
Já se vê pouco os jovens com aquelas malinhas só para as botas,
ténis brancos e patilha comprida.
21 fevereiro, 2009
até segunda
Ao contrário deste blogue, a livraria fecha. Aos domingos, ficam os livros a descansar do livreirito. Fecho a porta sorrindo, grato pelas visitas, e espero que segunda-feira, de outra maneira, com estes e outros clientes, se repita tudo outra vez.
destacados entre a montra, as mesinhas e as estantes
Liberto Cruz, Edgar Lee Masters, Rui Pedro Gonçalves, Tim Burton, Vindeirinho, José Duro, Dante, Manuel Gusmão, Isabel Meyrelles, Galuco Matoso, Guilherme de Faria, Vítor Nogueira, Bocage, Natércia Freire, Ernesto Cardenal, Carlos Edmundo de Ory, Cesário Verde, Blaise Cendrars, e aproximadamente quinze poetas aztecas cheios de magias e razão.
um poema
32.
A dor - não obstante a dor, chegarei a Horeb
antes que a noite caia, e direi os meus versos
de contrição e êxtase a quem tiver ouvidos.
E direi que a dor é como o fogo ou a lua,
e que me fortaleço na desolação, e o meu caminho
é pelo lume e os astros iluminado,
e mais me fortaleço na desolação.
Eu chegarei ao mar, e cantarei o hino,
e a minha canção incendiará a noite,
e os versos invocarão o homem, o bem-amado, o excelso,
e pelo meu canto aproximarei o coração
ao coração das raparigas que cantam em Jerusalém.
E direi que a dor é como o lume e os astros,
e que me fortaleço na desolação, e o meu caminho
é iluminado pelo fogo ou a lua,
e mais me fortaleço na desolação.
Amadeu Baptista
in Outros domínios, Câmara Municipal de Vila Viçosa, 2008
Obrigado ao Henrique que prefaciou e trouxe este livro.
A dor - não obstante a dor, chegarei a Horeb
antes que a noite caia, e direi os meus versos
de contrição e êxtase a quem tiver ouvidos.
E direi que a dor é como o fogo ou a lua,
e que me fortaleço na desolação, e o meu caminho
é pelo lume e os astros iluminado,
e mais me fortaleço na desolação.
Eu chegarei ao mar, e cantarei o hino,
e a minha canção incendiará a noite,
e os versos invocarão o homem, o bem-amado, o excelso,
e pelo meu canto aproximarei o coração
ao coração das raparigas que cantam em Jerusalém.
E direi que a dor é como o lume e os astros,
e que me fortaleço na desolação, e o meu caminho
é iluminado pelo fogo ou a lua,
e mais me fortaleço na desolação.
Amadeu Baptista
in Outros domínios, Câmara Municipal de Vila Viçosa, 2008
Obrigado ao Henrique que prefaciou e trouxe este livro.
20 fevereiro, 2009
onde é que está aquele, ai, como é que se chama, um com barba que faz poemas na assembleia?
Mutimati Barnabé João, Paul Bowles, Medeiros e Albuquerque, Oscar Wilde,
Miriam Reyes, Natália Correia, Paul Muldoon, Mario Benedetti, Oswald de Andrade,
Nuno Júdice, Paul Verlaine, Mario Chamie, Nuno Félix da Costa,
Marly de Oliveira, Octavio Paz, P. Esse Lopes, Nuno Moura,
Paul Laurence Dunbar, Mário Rui Oliveira, Nicola Vaptsarov,
Mário-Henrique Leiria, Mário Cesariny, Natércia Freire, Mário de Andrade,
Mário de Sá-Carneiro, Odysséas Elytis, Miguel Martins, Ovídio, Mario Faustino,
Mário Quintana, Max Aub, Matsuo Bashô, Michelangelo,
Nâzim Hikmet, Martha Medeiros, Marto R., Menotti del Picchia,
Mia Couto, Michel Sleiman, Pablo García Casado, Micheliny Verunschk,
Miguel Calatayud, Miguel de Unamuno, Miguel Manso, Miguel Real,
Miguel Torga, Milan Richter, Nunes da Rocha.
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
eu odiava plátanos, quem sabe se por ser a editora de quase tudo quanto era livro escolar.
no outro dia puxei pelo assunto do antónio osório por um motivo, que é algo como isto, que redimiu em mim os plátanos (de memória, talvez seja ligeiramente diferente)
via láctea
caminhar por ela
como quem olha
e ama
plátanos velhos
caminhar por ela
como quem olha
e ama
plátanos velhos
(...)
um poema do poema
*
mas eu, que tenho o dom das línguas, senti
a linha sísmica atravessando a montagem das músicas,
e ouvi chamarem-me em lírica,
numa língua nenhuma que não sabia,
e os acertos e erros do meu nome não eram traduzíveis
nas línguas do meu dom,
e soube então que ar e fogo se mantinham um ao outro mas,
em vez de se abrirem,
se fechavam, e estremeci das músicas ¿ oh
o que eram elas,
que coisa grande traziam para ser posta em mínimo,
e que somenos ministério lavrava assim a voz,
no vivo,
no arrepio do ritmo,
por brônquios, garganta e dentes,
para fora,
para o escuro,
para o número ímpar?
*
Herberto Helder
in Ofício cantante, Assírio & Alvim, 2009
mas eu, que tenho o dom das línguas, senti
a linha sísmica atravessando a montagem das músicas,
e ouvi chamarem-me em lírica,
numa língua nenhuma que não sabia,
e os acertos e erros do meu nome não eram traduzíveis
nas línguas do meu dom,
e soube então que ar e fogo se mantinham um ao outro mas,
em vez de se abrirem,
se fechavam, e estremeci das músicas ¿ oh
o que eram elas,
que coisa grande traziam para ser posta em mínimo,
e que somenos ministério lavrava assim a voz,
no vivo,
no arrepio do ritmo,
por brônquios, garganta e dentes,
para fora,
para o escuro,
para o número ímpar?
*
Herberto Helder
in Ofício cantante, Assírio & Alvim, 2009
dentro dos envelopes ou dos mails há coisas, digamos, giras
(...)
Por acaso até ganhei a merda do concurso.
(...)
Henrique, obrigado e um abraço
Federico Fellini a Giulietta Masina
Entrei numa loja para te comprar
um ramo de poemas.
Disseram-me que só tinham flores,
mas eu não entendi a resposta.
Repeti que queria um ramo de poemas.
Voltaram a explicar-me que ali só vendiam flores.
Sugeriram-me vários tipos,
disseram-me os nomes.
Como sabes, sou péssimo
com os nomes das flores.
Apenas tenho memória para poemas.
Esforcei-me para fazer compreender
esta minha particularidade,
mas ninguém me entendeu.
À força de não me quererem
vender poemas
impinginam-me flores.
Que cheiravam melhor
Que eram mais vivas,
que as mulheres gostam mais.
Flores que eu não quero,
que eu definitivamente não quero,
pois tenho-te a ti.
Ninguém dá flores às flores.
O que eu quero é um ramo de poemas
para poder oferecer à minha flor.
Henrique Manuel Bento Fialho
in A dança das feridas
19 fevereiro, 2009
um poema
depois de muito meditar
resolvi editar
tudo o que o coração
me ditar
Paulo Leminski
in O ex-estranho, Iluminuras, 2001
resolvi editar
tudo o que o coração
me ditar
Paulo Leminski
in O ex-estranho, Iluminuras, 2001
lá dentro, na segunda sala
W. B. Yeats, Rita Taborda Duarte, W.H. Auden,
Wallace Stevens, Walt Whitman, Rosa Alice Branco, Walter Benjamin,
Robert Hass, Waly Salomão, Wáshington Cucurto, Robert Louis Stevenson,
Zhang Kejiu, Roberto Juarroz, Wilfred Owen, William Blake, Rita Moutinho,
Robert Bringhurst, Wislawa Szymborska, Robert Muller, Wolf Erlbruch,
William Buroughs, William Carlos Williams, Rui Baião, William Morris,
Xavier de Maistre, Yannis Ritsos, Yehuda Amichai, Yi Sán,
Yves Bonnefoy, Roman Erben, Yvette K.Centeno,
Zé Luís Costa, Roger Bastide, Wei Han Wong.
uma curta e nobre linhagem e quem a invoca
(...)
Pérsio:
No tempo que eu mais penava,
dormia a noite ao sereno;
sustinha-me o que esperava;
sobre ua* cama de feno
muitas vezes repousava.
Agora, em nenhum lugar
acho descanso, nem vida,
para poder descansar.
Tenho a esperança perdida,
não me fica que esperar.
(...)
Bernardim Ribeiro
(* o U é acentuado com um til)


*
*
Herberto Helder
Pérsio:
No tempo que eu mais penava,
dormia a noite ao sereno;
sustinha-me o que esperava;
sobre ua* cama de feno
muitas vezes repousava.
Agora, em nenhum lugar
acho descanso, nem vida,
para poder descansar.
Tenho a esperança perdida,
não me fica que esperar.
(...)
Bernardim Ribeiro
(* o U é acentuado com um til)

(...)
A Ciência:
Então contempla atento
estes doutos da Lei, chefes do Pensamento,
dos quais até aos céus voou a egrégia fama.
São Moisés, Maomé, mais Zoroastro e Brama,
os quais têm por si só feito mais cemitérios
do que todos os reis e coveiros de impérios
que inda chumbam o mundo ao Erro e ao Preconceiro.
Atenta como vão, as mãos em cruz no peito,
tendo lançado o mundo à treva e à assolação.
Atenta neles bem!
(...)
Gomes Leal
A Ciência:
Então contempla atento
estes doutos da Lei, chefes do Pensamento,
dos quais até aos céus voou a egrégia fama.
São Moisés, Maomé, mais Zoroastro e Brama,
os quais têm por si só feito mais cemitérios
do que todos os reis e coveiros de impérios
que inda chumbam o mundo ao Erro e ao Preconceiro.
Atenta como vão, as mãos em cruz no peito,
tendo lançado o mundo à treva e à assolação.
Atenta neles bem!
(...)
Gomes Leal
Pára-me de repente o Pensamento...
- Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
- Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento
- Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
- Pára... e Fica... e Demora-se um Momento...
Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E Mergulha na Noute, Escura e Fria
Um Olhar d´Aço, que na Noute explora...
- Mas a Espora da dor seu flanco estria...
- E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!
Ângelo de Lima
- Como se de repente sofreado
Na Douda Correria... em que, levado...
- Anda em Busca... da Paz... do Esquecimento
- Pára Surpreso... Escrutador... Atento
Como pára... um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo... ante seus pés rasgado...
- Pára... e Fica... e Demora-se um Momento...
Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora
E Mergulha na Noute, Escura e Fria
Um Olhar d´Aço, que na Noute explora...
- Mas a Espora da dor seu flanco estria...
- E Ele Galga... e Prossegue... sob a Espora!
Ângelo de Lima

*
o ministério lírico, o mais grave e equívoco, o dom, não o tenho,
espreito-o, leitor,
por cima do ombro de outros,
rítmico, manuscrito,
porque sofro do êrro,
porque não me equilibro nas linhas,
palavras sim insubstituíveis mas
tão pouco sustentáveis,
sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,
que tusa surreal!
ou fodem murcho?
a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,
em teorias gerais da linguagem,
na vida eterna,
na gramática,
na foda estrita,
em prática técnica nenhuma,
na glória da língua,
não há apoio de inserção que me valha,
e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,
morro faz já bastante tempo,
ou não ganhei a mão esquerda certa,
ou não perdi a razão suficiente,
Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, os loucos,
para-me de repente o pensamento,
luzia a lusa língua,
se era o mesmo o ministério voltava sempre ao comêço,
exasperado, lúcido,
o mais música de câmara possível,
o recôndito,
o côrrego,
tão virgem nele se bebia a água,
e lisa, límpida, ligada,
e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,
o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,
oh terror e deslumbre,
aqua alta!
espreito-o, leitor,
por cima do ombro de outros,
rítmico, manuscrito,
porque sofro do êrro,
porque não me equilibro nas linhas,
palavras sim insubstituíveis mas
tão pouco sustentáveis,
sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,
que tusa surreal!
ou fodem murcho?
a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,
em teorias gerais da linguagem,
na vida eterna,
na gramática,
na foda estrita,
em prática técnica nenhuma,
na glória da língua,
não há apoio de inserção que me valha,
e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,
morro faz já bastante tempo,
ou não ganhei a mão esquerda certa,
ou não perdi a razão suficiente,
Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, os loucos,
para-me de repente o pensamento,
luzia a lusa língua,
se era o mesmo o ministério voltava sempre ao comêço,
exasperado, lúcido,
o mais música de câmara possível,
o recôndito,
o côrrego,
tão virgem nele se bebia a água,
e lisa, límpida, ligada,
e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,
o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,
oh terror e deslumbre,
aqua alta!
*
Herberto Helder
foi galo
Numa curta ausência do livreirito, excelsamente substituído pelo inquebrantável e sapientíssimo Miguel Martins, cá estiveram A. Dasilva O., Rui Caeiro, Luis Manuel Gaspar. O motivo da fuga, acreditem, foi altíssimo.
um poema do poema
*
a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão termica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso
*
Herberto Helder
in Ofício cantante, Assírio & Alvim, 2009
a acerba, funda língua portuguesa,
língua-mãe, puta de língua, que fazer dela?
escorchá-la viva, a cabra!
transá-la?
nenhum autor, nunca mais, nada,
se a mão termica, se a técnica dessa mão,
que violência, que mansuetude!
que é que se apura da língua múltipla:
paixão verbal do mundo, ritmo, sentido?
que se foda a língua, esta ou outra,
porque o errado é sempre o certo disso
*
Herberto Helder
in Ofício cantante, Assírio & Alvim, 2009
18 fevereiro, 2009
um poema do poema
*
exultação, fervor,
se doesse nas práticas da graça,
uma língua analfabeta, plena,
fazia-se um inferno para obrigá-los a falar nessa língua?
se fosse,
tanta gente estilística mas ninguém queria falar
com tanto poder,
tanta desordem na música,
que falassem numa língua incrível, dizia-se,
de quando os atropelos,
de quando quebrados os sete selos,
se doesse num pouco de gramática
*
Herberto Helder
in Ofício cantante, Assírio & Alvim, 2009
exultação, fervor,
se doesse nas práticas da graça,
uma língua analfabeta, plena,
fazia-se um inferno para obrigá-los a falar nessa língua?
se fosse,
tanta gente estilística mas ninguém queria falar
com tanto poder,
tanta desordem na música,
que falassem numa língua incrível, dizia-se,
de quando os atropelos,
de quando quebrados os sete selos,
se doesse num pouco de gramática
*
Herberto Helder
in Ofício cantante, Assírio & Alvim, 2009
agora mesmo
- O que é que tem aqui sobre bio-mecânica?
- Nada, caro senhor. Só livros de poesia, em torno de poesia, sobretudo de poesia.
- Então e de poesia bio-mecânica?
- Assim de repente, não sei, acho que nada. Não conheço nada.
- Isso da poesia é muito bonito, mas sem bio-mecânica a poesia não serve para nada.
- Nada, caro senhor. Só livros de poesia, em torno de poesia, sobretudo de poesia.
- Então e de poesia bio-mecânica?
- Assim de repente, não sei, acho que nada. Não conheço nada.
- Isso da poesia é muito bonito, mas sem bio-mecânica a poesia não serve para nada.
entram sem fazer continência
Wanda Ramos, Peter Handke, Alda Merini, Jorge de Sena, T.S. Eliot, Antero de Quental, Günter Kunert, Ângelo de Lima, Ibn `Ammâr, Blaga Dimitrova, Luís Miguel Nava, Cesare Pavese, Natália Correia, César Vallejo, Eugénio de Andrade, Anna Akhmátova, Jorge Aguiar Oliveira, Alda Lara, José Alberto Marques, e o mui nobre e sabedor Luis Manuel Gaspar.
a hora mais esperada
A era da Axiomática Futebolística começa aqui.
Tó Carlos: filosofia em movimento.
Tó Carlos: filosofia em movimento.

O perfil psicológico dos homens pode aferir-se através do jogo que preferem:
Brasil x Argentina
Holanda x Dinamarca
França x Itália
Portugal x Malta
*
No Ceará há dois gémeos que formam a dupla atacante num clube local, um tem 23, outro 25 anos.
*
A maturidade afectiva vem quando se odeia o clube rival sem culpa nem remorso.
*
O meu gato é a favor das novas tecnologias no futebol mas não consegue assinar a petição on-line.
17 fevereiro, 2009
segundo os censos mais recentes
Há dados verdadeiramente novos
em relação a certas e determinadas matérias.
Havia um homem – chamemos-lhe Anke – que era muito míope.
16 fevereiro, 2009
15 fevereiro, 2009
pérolas aos poucos*
Tó Carlos, a partir de quarta-feira,
terá presença regular neste blogue. Três exemplos do que podemos esperar:
terá presença regular neste blogue. Três exemplos do que podemos esperar:
Seccionista é um cargo que vai desaparecendos das SAD de futebol, está entre o gerente e o carolas.
*
A dinâmica ofensiva nem sempre faz juz ao nome.
*
Quem vai ao futebol sozinho está apanhado do juízo.
* É um título de José Miguel Wisnik.
*
A dinâmica ofensiva nem sempre faz juz ao nome.
*
Quem vai ao futebol sozinho está apanhado do juízo.
* É um título de José Miguel Wisnik.
um poema
A minha casa é lá longe onde nascem os lobos
Nessa terra dourada onde germinam as plantas ardentes do amor
Com as raízes flutuando entre as espumas da memória
As janelas abrem-se e mostram paisagens arrebatadoras à beira do abismo
Ou fecham-se de súbito formando a erosão das lágrimas
nas planícies melancólicas onde vivem os mortos
As escadas precipitam-se como feras atrás dos meus passos
Afundam-se na eternidade e sobem até às maiores alturas
Atrás das cortinas velhas múmias de prata lavrada pelos costumes errantes
Iluminam com uma claridade lunar
As tapeçarias transparentes das carícias
A saudade desesperada a violência da despedida
O fulgor dos países perdidos e das cabeças à deriva no mar de outros anos
Eu espero-te até que a casa se suma lentamente à flor da terra
Ernesto Sampaio
in Fernanda, Fenda
Nessa terra dourada onde germinam as plantas ardentes do amor
Com as raízes flutuando entre as espumas da memória
As janelas abrem-se e mostram paisagens arrebatadoras à beira do abismo
Ou fecham-se de súbito formando a erosão das lágrimas
nas planícies melancólicas onde vivem os mortos
As escadas precipitam-se como feras atrás dos meus passos
Afundam-se na eternidade e sobem até às maiores alturas
Atrás das cortinas velhas múmias de prata lavrada pelos costumes errantes
Iluminam com uma claridade lunar
As tapeçarias transparentes das carícias
A saudade desesperada a violência da despedida
O fulgor dos países perdidos e das cabeças à deriva no mar de outros anos
Eu espero-te até que a casa se suma lentamente à flor da terra
Ernesto Sampaio
in Fernanda, Fenda
(Também cá está)
14 fevereiro, 2009
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